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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Jair Rodrigues, vá com Deus mas, por favor, esteja sempre conosco

Jair Rodrigues se foi. Fechou seu pano, rápido e a gente ficou por aqui se perguntando porquê. Que pena. O Otaviano Costa definiu bem o que é o Jair Rodrigues: "a gente sempre teve a impressão que ele viveria uns 200 anos". 

Queria escrever algo, mas achei tão bacana e sincero o que o Caetano veloso disse, ontem, durante a turnê que está fazendo pela Europa. Ficou nada mais a dizer:

"Jair Rodrigues é uma dessas poucas grandes coisas de que Brasil deve se orgulhar. Ele foi talento espontâneo e alegria genuína combinados ao respeito pelo que veio a ser o seu trabalho. Não havia nenhuma atmosfera de prestação de serviço nessa disciplina. Era uma forma de expressão do seu natural companheirismo, nunca um cumprimento de dever empregatício. A gente faz música para não trabalhar, me disse Stefano Bollani. Jair era a encarnação dessa verdade. No entanto, ninguém mais assíduo, pontual, disposto a colaborar. Hoje é dia de São Nicolau, a cidade de Bari está em festa. Procissões marítimas, fogos de artifício, música. São Nicolau era preto. Do nome dele, que presenteava as crianças pobres na noite de Natal, veio a corruptela Santa Claus, que é o Papai Noel dos americanos que nós importamos junto com a Coca-Cola. Jair Rodrigues era um preto brasileiro cuja alegria toda a marra do hip-hop não abrangeria com sua crítica. Ela era por demais real, livre e superior. A felicidade que emanava de sua vida com Claudine, do desenvolvimento das personalidades e dos talentos de Jair Oliveira e Luciana Mello, as flexões que ele fazia no chão dos bastidores da TV Record, tudo se impõe como uma afirmação em plenitude de uma força vital humana. Sua parceria com Elis no Fino da Bossa é um dos momentos altos da história de nossa música. Ela dominava a matéria musical com todas as suas fibras tensas (mas o fazia de modo impactantemente rico e variegado), enquanto ele representava o relaxamento e a despreocupação. No entanto, assumindo a responsabilidade da 'Disparada', Jair, com sua incrível voz de tenor, emprestou à canção uma autoridade de outra natureza que não a dela mesma enquanto composição (que não era, de nenhum modo, pequena). Seu timbre, a cor de sua pele, o tom que ele deu ao abandono da brincadeira - a interpretação da música de Vandré e Theo de Barros revelou um homem brasileiro que reequilibrou nossa autoimagem. Para minha cabeça, Jair morrer é um contrasenso. É comum tecerem-se elogios à personalidade dos que deixam a vida, mas no caso de Jair Rodrigues, todos os lugares-comuns poderiam ser repetidos e ainda assim estariam sendo ditos pela primeira vez. E mesmo que os desfiássemos todos ainda estaríamos aquém da pletora de louvores que ele de fato merece". (Caetano Veloso)

texto publicado por Luciana Mello em seu perfil no Facebook.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Você é um branquinho de tirar o chapéu...

Sempre achei o Axl Rose um chato e do Guns eu sempre gostei de bem menos músicas do que o suficiente pra comprar o CD. Por isso, por ficar apenas no conforto dos hits, não me considero um fã. E não gosto de artista que dá piti, se atrasa, desrespeita o público, essas “excentricidades” e o Axl sempre esteve nesta minha lista, dos malas.

Mas admiro os caras que reconhecem o valor da música brasileira, mesmo sem entender uma palavra. A música boa, diga-se de passagem. E nisso Axl me ganhou.  Tomara que a foto que ele tirou com Alcione em Recife durante a turnê tenha sido sincera. Tirou foto, elogiou e publicou em seu twitter, com direito a "With the amazin' Alcione Nazareth!".

Alcione também não brincou em serviço e tirou uma casquinha: "Hoje eu ganhei meu dia! Encontrei meu ídolo Axl Rose! Abracei, beijei, cheirei, fiz tudo que tinha direito! Sou muito fã do Guns N' Roses e especialmente dele!", Marrom publicou em seu Instagram.

Num país onde os caras vem e reconhecem nossos valores artísticos muito mais do que nós mesmos o fazemos, é mesmo de tirar o chapéu. Valeu Axl, prometo ser mais tolerante com suas frescuras de astro.

fonte: folha online

domingo, 31 de março de 2013

Páscoa - troque seu coelho por alguma coisa forte

Uma Páscoa sem coelhos e com muita música. Duas primorosas descobertas. Quanto mais eu aprendo sobre música e arte, mais com um burro me pareço. Coisas demais para um tempo curto demais. 

Era uma vez o Morphine

Mark Sandman - infarto no palco
Uma banda resolve recriar dois estilos, juntando-os: Rock e Jazz, tocados com bateria, saxofone e um baixo com apenas duas cordas e tocado em slide guitar. As canções tem boas letras e o baixista é o cantor, com voz aveludada, melódica, ao estilo crooner anos 50.

Falando, assim, dessa improvável combinação, não dá pra ter a idéia do que foi o Morphine. Um poço de talento abundante por 10 anos e que secou na noite de 3 de junho de 1999. Mark Sandman, o baixista-cantor-letrista tem um infarto fulminante e morre no palco, "de modo romanesco" - durante um show em Palestrina (Itália). Foi-se com ele o Morphine.

veja um vídeo deles




Arrigo cantando Lupicínio

Só conhecia o paulista Arrigo Barnabé quando mencionado na letra de “Língua” (Caetano Veloso) e de alguma parceria muito distante com Tetê Espínola (Você pra mim foi o sóóól de uma noite sem fiiiiim!!!) e Vânia Bastos em festivais de Música. Embora considerado inventivo e de estética sofisticada, sempre achava “sofisticado” demais pros meus ouvidos. Aquele jeitão ilimitado e incontido, de voz rasgada, muito mais performático do que cantor, não me dizia muito. Até que parei pra ouvir Arrigo cantando Lupicínio Rodrigues na TV Cultura, num sábado de feriado de Páscoa (2013). 
Arrigo Barnabé - "Caixa de Ódio" pra homenagear Lupicínio
Em 2010, lançou um DVD chamado “Caixa de Ódio”. O show aconteceu “na menor casa de espetáculos do mundo”, a Casa de Francisca, em São Paulo. Bem ao estilo coração na mão, Arrigo deu uma roupagem diferente, sem cair no dramalhão, mas respeitando um ainda mais incontido Lupicínio. Alí, tudo era de bom gosto.  Taí um show do Arrigo que eu não queria ter perdido, mas perdi com 3 anos de atraso. Arrigo, prometo ser menos preconceituoso e ouvi-lo com mais atenção.

Veja dois vídeos ótimos:


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Caio Martinez - No Tempo da Delicadeza


Caio Martinez - talento e generosidade

Inexplicável magia do encontro, como diz meu amigo e carioquíssimo Alberto Martins. Chegam dois caras de violão em punho, simples e discretos, para mandar uns sambas-canções daqueles do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Começam os primeiros acordes de “as rosas não falam” (Cartola). Ninguém com aquela voz passa despercebido. E não pararam por ali. Veio “Amélia”, aquela que era mulher de verdade. Veio “Nervos de aço” e uma fila de “Standards”. 

Ver o Caio Martinez cantando me trouxe a sensação de ser abraçado por um amigo que te aguarda na varanda de casa - tamanha generosidade e empatia com que entoa cada canção.

Quanto mais quero saber dos talentosos e prestigiá-los, mais me sinto alienado, distante e sem tempo de encontrá-los. Isso demanda tempo e energia, uma vez que tem muita gente talentosa e injustamente anônima– é preciso peregrinar, primeiro por sites, youtubes (separando o joio do trigo), depois por casas noturnas e também ter a sorte de estar no lugar certo, na hora certa, para ter o privilégio de conhecer encontrar um Caio Martinez. Não curto a noite, sou do dia, por sorte ou destino, não precisei dormir tarde. 

Então tá, quem tiver em Porto Alegre (Rio Grande do Sul, Brasil), olhe com bem mais atenção pra esse peregrino do samba. A nossa MPB agradece. Veja o vídeo e acesse o site (caio - clique). Repare o charme da risca de giz no lay out de fundo do site...chique demais.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Kledir Ramil - Um "guri" aos 60


Quando penso que Kledir Ramil fez sessenta anos em 21 de janeiro, acredito ainda mais que o bom humor retarda a velhice, sutil diferença entre os sábios e os "gatões".

Quando eu era garoto, tinha uns 8 anos, mais ou menos, conheci a música de Kledir e seu irmão, Kleiton. E por alguns anos confundia os dois. Na minha cabeça de cirança, "Kledir" soava bem pro cara mais baixinho, mais tímido e de óculos. Kleiton ficava melhor pro cara mais alto e inquieto, com sorrizão. Custou pra entender que um era um e outro era outro - a custa de muito livrinho de cifras pra violão, inevitável.

Kledir Ramil - 60 anos
Kledir fez história na música popular brasileira, com os Almôndegas na década de 70 (Vento Negro, campo a fora, vai correr...), ganhou o Brasil junto com o Irmão Kleiton, banhando o rádio com sucessos bem humorados (Essa Maria Fumaça, devagar, quase parada...) e embalando a gente com over doses da mais fina e sofisticada sacanagem (Essa boca, muito louca, pode me matar. Se isso é coisa do demônio, eu quero pecar). Junto com Kleiton, criou um estilo de cantar que tem grife – não fazem segunda voz, cantam em corinho mesmo. Não lembro de ver outra dupla cantar desse jeito. Já foram o “U2” brasileiro na década de 80, lotaram ginásios e novelas das oito. Hoje a dupla com o irmão continua, mas Kledir desfruta de uma fama bem mais discreta e sossegada - nem por isso musicalmente menos relevante. Artista consistente não sai de moda, mesmo quando a radio não toca. Muita gente, até hoje, acha aquela história de "deu pra ti" meio estranha. E até hoje não dá pra classificar bem o estilo daquela música, mas quem se importa? Qualquer casal nascido no final dos anos 60 e medianamente antenado em música conhece, no mínimo, 3 ou 4 canções de Kleiton & Kledir. E foi a primeira vez que ouvi uma rabeca tocar no rádio.

Há anos Kledir escolheu o Rio de Janeiro como casa, onde vive com a família, sem jamais cortar o cordão com o Sul e de Satolep (ou Pelotas - antes que você venha com aquela brincadeirinha hostil de sempre, a resposta é NÃO - Pelotas produz excelentes artistas).

Não é pra menos que, se não me dissessem que esse “guri” da foto faz 60 não ia acreditar. Parabéns Kledir, tú és meu modelo de como quero entrar nos sessenta e a prova material de que o Sertanejo Universitário não vai nos vencer... 

visite o blog do Kledir, muito divertido (clique aqui) e pra quem não sabe, os caras continuam firmes, fazendo show e tudo mais...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Caetano Veloso faz 70 anos - é daí?


Melhor seria falar de Caetano Veloso como falei esses dias de Paul McCartney, mas não dá. Caetano faz 70 anos e salta aos olhos um fato - a crítica do jornalista André Forastieri, do R7 - inconformado por, segundo ele, não ver nada relevante do baiano nos últimos 30 anos. Sou obrigado a concordar. Ele vive de sucessos pré-históricos e a última vez que lançou hits foram “Sozinho” (nem é dele, mas do Peninha - no álbum Prenda Minha, de 1998) e Mimar Você, uma espécie de “Sozinho 2” do álbum Noites do Norte, de 2002 – há mais de dez anos. Caê merece todo o nosso respeito, mas haja condescendência. Você lembra de alguma música legal do Caetano nos últimos anos ou discos? Tem uma lista absurda de sucessos antológicos. Sempre que lançava um disco, metade da bolacha (ou do CD) se ouvia nas rádios. Já o tal do disco Zii e Zie (até o nome é tudo e nada) de 2009, veio e foi e...nada. Nem um psêudo-modernismo, uma crítica autêntica, nada.

É gostoso de ouvir o disco Fina Estampa no trânsito de São Paulo. Tangos, boleros tocados com estética inovadora, mas...isso foi em 1994.  No disco Livro, O Navio Negreiro é uma viagem angustiante, uma das mais belas adaptações poéticas em música...mas estamos falando de 1997.Todo o senhor tem o direito de entrar nos setenta com sua missão cumprida. Pena que, no caso de Caetano, parece que a missão se cumpriu cedo demais. Cedo demais. 

Veja abaixo clip - "Não Enche", do show "Prenda Minha", de 1998. Divertido, ritmado, desbocado, como um bom Caetano.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Jorge Ben Jor - sucesso aos 70 (ou 67)

Não é todo artista que pode se dar ao luxo de chegar aos 67 anos com um dilema: mesmo que o show tenha 3 horas de duração, o público vai acabar percebendo a falta de uma ou outra música. Jorge Ben Jor é assim. Tem tantos hits que um show nunca chega pra tocar tudo o que produziu em 50 anos de carreira. Jorge Duílio Lima Meneses queria jogar futebol, mas não deu. Enveredou pra música, tocando pandeiro e violão. Queria cantar como João Gilberto, mas talvez por apelo do seu DNA, também não deu. Misturava funk do Tim Maia, rock Jovem Guarda e a brasilidade tropicalista. Deu no que deu – é tido como o criador do Samba Rock. Tenha a idade que tiver, é difícil alguém que jamais tenha ouvido “Mais que nada”, “Fio Maravilha”, “País Tropical”, “Que Pena”, “Charles Anjo, 45”, "A Banda do Zé Pretinho"...a lista é muito grande pra um post. Passou por fases, mas nos anos 80 estava longe das rádios quando Washington Olivetto pediu que escrevesse uma música pra homenagear os 10 anos da agência dele, a W/ Brasil. Deu no que deu. Em 1990, o refrão mais ouvido era “Alô, alô, W Brasil!”.  Já foi gravado por Deus e todo mundo, de Maria Alcina a Black Eyed Peas. Até Tim Maia deu um "up" na carreira depois da citação em W/Brasil.
Bem Jor é diferente até pra fazer aniversário. Reza a lenda que faria 70 anos em 2012 (na web o que se vê são vários registros de que nasceu em 42), mas ninguém confirma, nem ele mesmo. Não importa. Ainda não fui a um show dele, mas não me preocupo. Pela vitalidade desse guerreiro da música, terei muitos anos ainda pra curtir. Salve, Jorge.
veja o clip:
fontes: wikipedia, estadao.com e porto gente.com.br

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jair Rodrigues - Parabéns a um Rei Negro (06 de fevereiro)

O ano era 1964 - do lado da igreja da Consolação em São Paulo, numa boate chamada Star Dust, uma banda ensaiava o repertório, como de hábito. O crooner, Jair Rodrigues. O maestro, Hermeto Pascoal. E estavam os caras do Zimbo Trio. Jair chegou na boate como sempre mas mostrou um samba novo, dum compositor chamado Edson Menezes:
- Gente, tem uma música aqui pra gente ensaiar. E entoou o verso falado: “Deixa que digam, Que pensem, que falem, Deixa isso prá lá, Vem prá cá, O que é que tem? E eu não tô fazendo nada, Nem você também, Faz mal bater um papo, Assim gostoso, com alguém?”
Um Hermeto meio atônito, ponderou: - Ô “Furico” (alí, todo mundo na banda se chamava uns aos outros de Furico), eu não sei acompanhar conversa não, só música!
- Mas tem a segunda parte, ó: Vai vai por mim, balanço de amor é assim... E dessa forma, acertaram o tom do novo samba. Rolou a noite e, por volta das três da manha, um casal que tava na casa desde o ensaio, pediu: - Jair, toca aquela que vocês tavam ensaiando hoje cedo? “Tequetê-Tucutú, Patatí-Patatá...”. Pra atender ao pedido, Jair  virou pra Hermeto Paschoal:
- Olha, o pessoal ta pedindo aquela que a gente ensaiou hoje cedo.
Mas Hermeto não lembrava. Jair então, por instinto, impôs as duas mãos com as palmas viradas pra cima e começou a alternar e sacudir freneticamente aquelas mãos enormes na cadencia do samba falado, palma pra cima, palma pra baixo... “Deixa que digam, Que pensem, que falem, Deixa isso prá lá, Vem prá cá, O que é que tem? E eu não tô fazendo nada, Nem você também, Faz mal bater um papo, Assim gostoso, com alguém?” Quando a banda se deu conta, casais se descolavam na dança pra imitar o gesto daquele refrão diferente, ritmado e falado. Nascia ali o primeiro RAP do Brasil. Depois daquele dia, ninguém mais esqueceu Jair Rodrigues.
Outubro, 2004. Eu, metido num mar de ansiedade e essa ansiedade tinha um nome: Jair Rodrigues. Em duas horas, começaria um show para cerca de mil pessoas em comemoração ao Dia do Médico no Minas Centro, Belo Horizonte. O que me deu na cabeça de contratar aquele “Rei Negro” da MPB pra fazer um show? Quem eu penso que sou, afinal de contas? Pensava nisso fazendo a barba, quando me liga o meu amigo Saldanha:
- O Jair já chegou no hotel, mas a notícia não é boa. Ele chegou de van, de outro show em Uberlândia - tá sem voz, tô levando ele no Dr. Alexandre Rattes pra ver o que dá pra fazer. Te dou notícias.
Não sabia se ria, se chorava. Era laringite, pelos muitos shows. O Jair garantiu que cantava, Dr. Rattes receitou algo e na hora do show, suspense. Entra o Jair, ovacionado por mais de mil pessoas. Dava pra ver que o som da banda cobria a voz do mito, afônico. Minhas mãos estavam frias, mas era Jair Rodrigues. Começou a entoar “Tristeza”, terceira música do set list já com voz de quem disse a que veio. Agradeceu do palco, o Dr. Alexandre pela força, eu também agradecia. Voz aquecida, o anfiteatro veio abaixo em uma hora e meia de espetáculo, encerrado com “Majestade o Sabiá” e “Deixa isso pra lá”. Eram centenas de mãos sacudindo e Seu Jair regendo todo mundo, em pé numa das poltronas, no meio do público.
Depois do show, fomos comer galinha ao molho pardo no Maria das Tranças, com a banda e frente a frente com o Jair. Perguntei: “- e a garganta, Jair?” Antes de colocar um naco de galinha na boca, sorriu largo: “- Laringite? Com sessenta e cinco anos, cinqüenta de estrada, laringite se cura com mais música”. Não sobrou muito a dizer, só aprendizado.  
Jair Rodrigues de Oliveira nasceu no dia 06 de fevereiro de 1939, em Igarapava, São Paulo. Dia desses descobri que aniversariávamos em dias próximos (nasci em 05 de fevereiro). Pena não poder ter dito isso a ele naquele jantar inesquecível – por isso resolvi contar essa história. Com a energia desse Rei Negro, não duvido que ainda possa ter a chance de outro encontro, quem sabe? Vida longa a você, Jair Rodrigues.   
fonte: jair rodrigues website, youtube e Record Cultura (jornalista Arnaldo Duran)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Lula e Michel Teló – tudo a ver com a Suíça


Ana Paula Falk,
direto de Zurique, Suiça
Imagine um bate-bola de rádio, tipo “Jovem Pan dos Alpes” - perguntavam pra um político suíço (cujo nome em português é simplesmente impronunciável) onde passar as férias, em quais restaurantes comer em Zurique, onde levar um turista pra ver coisas legais, essas coisas. Perguntas que exigem respostas diretas, sem frescura.  Aí veio a pérola: o locutor pergunta “cite um político” e a criatura me larga essa: “Luulá!” (a pronúncia deles soa desse jeito mesmo, com acento agudo). Me dei conta da abissal inocência do suíço (no caso, mesmo pra um político) e de quão o marketing político bem feito faz tantos milagres quanto um jogador de futebol famoso dançando “Ai se eu te Pego”. O que eu penso sobre o ex-presidente ou o Michel Teló não vai mudar o fato de que são queridos por aqui. Lula é o Michel Teló da política e ponto.
Michel Teló - "Ai se eu te pego",
na minha câmera, jamais!
Morro de curiosidade para saber como seria, ver milhares de suíças dançando a música de Michel Teló e cantando “Ai se eu te pego” sem a menor idéia do que elas estao falando. Não adianta o Youtube remover, o show dele em Zurique vai ficar nos celulares e maquininhas de muita gente pra todo o sempre (na minha máquina, não!). As suíças são um barato. Outro dia uma cantou o refrão perfeito e veio me perguntar se eu conhecia a música. Ela não sabia o que dizia a letra e cantava com entusiasmo. Me lembrou o esforço que a gente fazia pra cantar em inglês num tempo em que tudo o que vinha dos “states” pré subprime era o “must”. O Brasil tá moda, o Michel Teló também e as coisas aqui em Zurique realmente estão mudando. “Micheletos e Michelettes”, desculpem-me, mas pra quem já viu tocar Elis Regina nas rádios locais, tá complicado. Tem coisa melhor pra cair no gosto deles, até a Ivete Sangalo, mais eletrizante e com um conteúdo melhorzinho. Pensando por esse lado, melhor não entenderem a letra mesmo.
Aninha Falk, pro “SeES!”, de Zurique.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ouça Luciana Mello - seu ouvidos agradecem

 “Simples Desejo” – quando ouvi pela primeira vez achei a música singela demais. Era simples, como o título. Letra do Jairzinho Oliveira, um instrumental super requintado, uma voz muito melodiosa e versátil. Foi como eu conheci Luciana Mello. Quando me dei conta, botava no CD do carro quando ia ou pro escritório ou pro aeroporto, todos os dias – eram dias onde eu só precisava que o dia terminasse bem. “Hoje eu só quero que o dia termine bem” virou meu mantra nas remotas manhãs em Belo Horizonte. Estou falando de 2002 ou 2003, mais ou menos. A música já tinha dois anos de sucesso, mas eu andava meio alienado. Vendo uma performance dela com “É assim que se faz” num desses “Faustões” da vida, com dança e corpo de baile, a coisa não fechava. Luciana Mello era maior que aquilo. Aquele público não entendia o valor daquela música e não por culpa do público. É mais fácil gostar de Luan Santana do que de Luciana Mello (nada contra o Luan, mas é verdade). Não por coincidência, as aparições dela em programas de auditório foram se tornando raras.
Me envolvi tanto com o som de Luciana Mello, que botei na cabeça que queria contratar um show dela, um desafio pessoal. Missão cumprida. Em 2005, Teatro do Hotel Ouro Minas em Belo Horizonte, quase 500 pessoas assistiam essa pérola negra soltando a voz de pé engessado (um acidente domestico, ou coisa assim) em pleno dia dos namorados. O público? Casais onde no mínimo um dos dois era médico, senão os dois. O teatro veio abaixo, tinha gente sentada no chão, na ante-sala e uma fila de mais de 30 carros tentando uma vaga no estacionamento do hotel. Não dá pra esquecer um dia desses. Eu, envolvido demais com a organização como estava, consegui ver do back stage duas ou três músicas. Mas na hora do “Simples Desejo”, onde tudo aquilo começou, estava no estacionamento junto com a gerência do Hotel acalmando os ânimos de quem não conseguia entrar. Nada é perfeito. Vendo toda aquela gente entoando Simples Desejo, virei e comentei com meu amigo Saldanha: “Cara, conseguimos, você acredita?”.
Passado um tempo, Luciana Mello se tornou a imagem daquilo que dá orgulho no Brasil. Arte honesta, consistente, música popular moderna e de raiz – atemporal, como Jair Rodrigues (tem a quem puxar). E só tem 32 anos. Uma voz sofisticada e acessível, jamais vai ser POP, porque não é pra ser, mas quem se der ao direito de conhecer Luciana, é um caminho sem volta. Se dê a esse Simples Desejo.
Com o novo sucesso Tchau, que nem "Simples Desejo" ela fez aquilo de novo...tá no CD do carro. Veja o video.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dusek, você é O Cara.

Eduardo Dusek escandalizou no final dos anos 70 cantando e tocando piano pra uma galera ensandecida. Vestia fraque e cuecão, cabeleira loura, absoluto. Cantava "Nostradamus", uma sátira de humor negro atual até hoje. Na época, muita gente não entendeu. Em 1980 eu era um frangote fascinado pela febre daquele Festival MPB Shell. Nunca esqueci aquela figura que, pouco tempo depois, na onda oitentista emplacaria Barrados no Baile, Cabelos Negros, Aventura, Rock da Cachorra e muito mais. Dusek tem menos espaço no cenário do showbiss brasileiro do que a sua estatura (não só a verdadeira, de quase dois metros). Uma pena. Verdadeiro gigante pela própria natureza, faz teatro, novela, canta, compoe, pinta, borda, tudo impecável, como prova seu novo DVD. O nível é altíssimo como só Eduardo Dusek sabe exigir dele mesmo. Dusek, você é o cara.

sábado, 20 de março de 2010

Roberto Carlos - aos 69 anos, em Ritmo de Aventura

Não sobra muito que falar de quem trás na bagagem 50 anos de carreira, mais de 600 músicas compostas e vários recordes de venda de discos. Mas até um Rei se reinventa. Aos 69 anos, Roberto Carlos não precisaria mais provar nada. Mas tem por hábito surpreender de tempos em tempos, principalmente nesses últimos anos pós-TOC e pós-Maria Rita. Voltou a tocar violão em público, participou fortemente das comemorações dos 80 anos de Hebe Camargo em 2009 e a última: é garoto-propaganda da mega Campanha - “Nestlé em Ritmo de Prêmios” (19/01 a 16/04/2010). A Nestlé está sorteando 50 calhambeques modelo Chevy 1933 Coupy, restaurados pelo ex-piloto e empresário Emerson Fittipaldi, além de jóias, DVDs e no final, um grande prêmio de 1 milhão de reais. A Nestlé já patrocina RC desde 2003, mas há 17 anos que ele não participava de comerciais de televisão. A campanha foi realizada pela turma de outro ícone brasileiro, Washington Olivetto (agência W/, preciso dizer mais?) e faz parte do pacote de comemorações dos seus 50 anos de carreira. Roberto foi eleito um dos 100 cantores mais influentes em 2009. Juntar num mesmo projeto Roberto Carlos, Fitippaldi e Olivetto só podia dar nisso. Se sou fã de Roberto? Não sou o que se poderia chamar de fã, mas admiro seu magnetismo. Não sossego enquanto não ver um show dele um dia. Quem já viu, mesmo não sendo tiete, diz que é inesquecível. Vida longa e Saúde a Roberto Carlos! Veja comercial da campanha abaixo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

JOHNNY ALF - só agora o Brasil o redescobre??

Hoje, 04 de março de 2010, o câncer de próstata calou o piano mais intrigante da MPB.
Pois, inspirado pelo meu grande amigo Zeca Petersen, eu ví um show do mestre Johnny Alf, tive esse privilégio - no Bar do Tom, ao lado do Plataforma, Rio de Janeiro, numa noite de 1997 - um som inclassificável. Era bossa, jazz, samba, era Johnny Alf. Eu e a Brisa, Ilusão a Toa, Rapaz de Bem... - paralisado estava, paralisado fiquei. Aquele senhor negro, tímido, na época já com quase 70 anos, um rabinho de cavalo elegante e óculos de aros grossos, era o autor absoluto daquelas maravilhas. Estava ali, naquele restaurante modesto, mandando aquelas preciosidades, sorriso humilde, aceitando as palmas. Tanta genialidade não cabia naquele restaurante de umas 40 mesas, não mais que isso.
Dá pra dizer que ele inventou o Cool na música brasileira, letras sérias, sussurradas, bem menos açucaradas do que os dramalhões tipo Orlando Silva (pós-anos 40). Eram harmonias complexas do jazz, mas com um balanço que denunciava a origem brazuca. “Tom Jobim dizia que antes mesmo de lançar a Bossa Nova, tinha respeito por Johnny Alf ” – palavras de Pery Ribeiro, um dos melhores interpretes que a MPB já teve.
Johnny Alf foi um inovador e, aos 80 anos, morando numa clínica de repouso em Santo André/SP, morre após 3 anos lutando contra um câncer – sozinho e quase anônimo. Eu, um brasileiro no meio de muitos, sinto remorso. Não é apenas com Wilson Simonal que o Brasil tem e vai ter pra sempre uma grande dívida. Infelizmente o Sr. Alfredo José da Silva, natural do Rio de Janeiro, engrossou a lista. Johnny, Saúde à sua obra que essa geração MP3 não conheceu. (Veja a discografia de Johnny Alf)

fonte: Folha Online , Sombras.com website e Jornal Cruzeiro do Sul, Piracicaba - 04/03/2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lí nas férias II - "Nem Vem Que Nâo Tem" - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal

Simonal era negro, rico, muito famoso e petulante (não necessariamente nesta mesma ordem). Ok, nenhuma destas peculiares características credencia um mito da música ao ostracismo cultural dentro de seu próprio país por 30, 40 anos a fio. Ele morreu de desgosto. Se meteu numa confusão da qual hoje a história o redime (se eu contar, estrago a espectativa sobre o livro) - mas não conseguiu limpar seu nome em vida e subir um degrau sequer no pódio da história da MPB. Somente nos últimos 2 anos seus filhos Max de Castro e Wison Simoninha conseguiram realizar o desejo do pai (morto de cirrose em 2000): ver relançado seu catálogo de discos em versão remasterizada, com direito a um DVD (Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei – direção do Casseta Cláudio Manuel) luxuosíssimo, contando a movimentada vida de Wilson Simonal do sucesso ao quase anonimato em 10 anos.
O Livro "Nem Vem Que Nâo Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal "é o DVD em ricos detalhes. Simonal influenciou e influencia muita gente boa até hoje. Era considerado o Frank Sinatra brasileiro, rei do balanço, chegou a rivalizar com Roberto Carlos (mas enfim só poderia existir um rei no Reino de Avilan). Junto com Jorge Bem e Tim Maia, por exemplo, revolucionou a música com seu estilo “Show Man” gaiato e pretensioso. Naquela época, “o must” da TV e do "showbiz" no Brasil eram os programas de auditório e os festivais, além das apresentações em boates. Super shows em estádios ou ginásios não eram comuns como hoje. Ele traçava tudo – tinha o público na mão, como na famosa apresentação do Maracanazinho, abrindo (e literalmente engolindo) o show do estelar Sérgio Mendes, - “regeu” um côro de 30 mil vozes cantando “Sá Marina (Antônio Adolfo / Tibério Gaspar)” na base do “Agora só os 15 mil da direita! Agora só os 15 mil da direita!”. Não houve outro como Simonal. As gerações atuais já estão vendo isso e as do futuro verão ainda mais a falta que ele faz. Para comprar o livro: Saraiva bookstore

domingo, 10 de janeiro de 2010

Lí nas Férias - Minha Fama de Mau - Erasmo Carlos

"Minha Fama de Mau" não tem a pretensão de ser um "baú de tesouros perdidos" da história da MPB. Nem escancarar a vida devassa ou o lado negro de nenhum POP Star (e nem mesmo a do próprio Erasmo Carlos, claro). É uma autobiografia debochada e reúne “causos” colecionados durante a longa estrada. Uma que outra história ingênua, um tanto bobinha, mas contada com inspirado senso de humor – faz a gente sentir como se estivesse interagindo com as memórias de um velho amigo.

O livro ajuda a desmistificar o mito Erasmo Carlos, injustamente datado pelo fenômeno Jovem Guarda e aparentemente vivendo à sombra de Roberto Carlos. Erasmo destila elogios a amigos, como Bem Jor e Tim Maia, declara reiteradas vezes seu amor por Narinha (ex-esposa, se suicidou em 1995) e homenageia vigorosamente sua amizade por Roberto Carlos (embora já não se encontrem para compor há vários anos). A narrativa nos privilegia com detalhes de como surgiram alguns dos hinos da MPB, tais como Cavalgada, Emoções e Sentado a Beira do Caminho.
Pra quem, como eu, A-DO-RA música, “Minha Fama de Mau” é diversão certa.
Se Espirrar, Saúde, Tremedão!

“Minha Fama de Mau” – Erasmo Carlos / Editora Objetiva – 2009 (para comprar, só clickar)