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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Jair Rodrigues, vá com Deus mas, por favor, esteja sempre conosco

Jair Rodrigues se foi. Fechou seu pano, rápido e a gente ficou por aqui se perguntando porquê. Que pena. O Otaviano Costa definiu bem o que é o Jair Rodrigues: "a gente sempre teve a impressão que ele viveria uns 200 anos". 

Queria escrever algo, mas achei tão bacana e sincero o que o Caetano veloso disse, ontem, durante a turnê que está fazendo pela Europa. Ficou nada mais a dizer:

"Jair Rodrigues é uma dessas poucas grandes coisas de que Brasil deve se orgulhar. Ele foi talento espontâneo e alegria genuína combinados ao respeito pelo que veio a ser o seu trabalho. Não havia nenhuma atmosfera de prestação de serviço nessa disciplina. Era uma forma de expressão do seu natural companheirismo, nunca um cumprimento de dever empregatício. A gente faz música para não trabalhar, me disse Stefano Bollani. Jair era a encarnação dessa verdade. No entanto, ninguém mais assíduo, pontual, disposto a colaborar. Hoje é dia de São Nicolau, a cidade de Bari está em festa. Procissões marítimas, fogos de artifício, música. São Nicolau era preto. Do nome dele, que presenteava as crianças pobres na noite de Natal, veio a corruptela Santa Claus, que é o Papai Noel dos americanos que nós importamos junto com a Coca-Cola. Jair Rodrigues era um preto brasileiro cuja alegria toda a marra do hip-hop não abrangeria com sua crítica. Ela era por demais real, livre e superior. A felicidade que emanava de sua vida com Claudine, do desenvolvimento das personalidades e dos talentos de Jair Oliveira e Luciana Mello, as flexões que ele fazia no chão dos bastidores da TV Record, tudo se impõe como uma afirmação em plenitude de uma força vital humana. Sua parceria com Elis no Fino da Bossa é um dos momentos altos da história de nossa música. Ela dominava a matéria musical com todas as suas fibras tensas (mas o fazia de modo impactantemente rico e variegado), enquanto ele representava o relaxamento e a despreocupação. No entanto, assumindo a responsabilidade da 'Disparada', Jair, com sua incrível voz de tenor, emprestou à canção uma autoridade de outra natureza que não a dela mesma enquanto composição (que não era, de nenhum modo, pequena). Seu timbre, a cor de sua pele, o tom que ele deu ao abandono da brincadeira - a interpretação da música de Vandré e Theo de Barros revelou um homem brasileiro que reequilibrou nossa autoimagem. Para minha cabeça, Jair morrer é um contrasenso. É comum tecerem-se elogios à personalidade dos que deixam a vida, mas no caso de Jair Rodrigues, todos os lugares-comuns poderiam ser repetidos e ainda assim estariam sendo ditos pela primeira vez. E mesmo que os desfiássemos todos ainda estaríamos aquém da pletora de louvores que ele de fato merece". (Caetano Veloso)

texto publicado por Luciana Mello em seu perfil no Facebook.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Caetano Veloso faz 70 anos - é daí?


Melhor seria falar de Caetano Veloso como falei esses dias de Paul McCartney, mas não dá. Caetano faz 70 anos e salta aos olhos um fato - a crítica do jornalista André Forastieri, do R7 - inconformado por, segundo ele, não ver nada relevante do baiano nos últimos 30 anos. Sou obrigado a concordar. Ele vive de sucessos pré-históricos e a última vez que lançou hits foram “Sozinho” (nem é dele, mas do Peninha - no álbum Prenda Minha, de 1998) e Mimar Você, uma espécie de “Sozinho 2” do álbum Noites do Norte, de 2002 – há mais de dez anos. Caê merece todo o nosso respeito, mas haja condescendência. Você lembra de alguma música legal do Caetano nos últimos anos ou discos? Tem uma lista absurda de sucessos antológicos. Sempre que lançava um disco, metade da bolacha (ou do CD) se ouvia nas rádios. Já o tal do disco Zii e Zie (até o nome é tudo e nada) de 2009, veio e foi e...nada. Nem um psêudo-modernismo, uma crítica autêntica, nada.

É gostoso de ouvir o disco Fina Estampa no trânsito de São Paulo. Tangos, boleros tocados com estética inovadora, mas...isso foi em 1994.  No disco Livro, O Navio Negreiro é uma viagem angustiante, uma das mais belas adaptações poéticas em música...mas estamos falando de 1997.Todo o senhor tem o direito de entrar nos setenta com sua missão cumprida. Pena que, no caso de Caetano, parece que a missão se cumpriu cedo demais. Cedo demais. 

Veja abaixo clip - "Não Enche", do show "Prenda Minha", de 1998. Divertido, ritmado, desbocado, como um bom Caetano.