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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jair Rodrigues - Parabéns a um Rei Negro (06 de fevereiro)

O ano era 1964 - do lado da igreja da Consolação em São Paulo, numa boate chamada Star Dust, uma banda ensaiava o repertório, como de hábito. O crooner, Jair Rodrigues. O maestro, Hermeto Pascoal. E estavam os caras do Zimbo Trio. Jair chegou na boate como sempre mas mostrou um samba novo, dum compositor chamado Edson Menezes:
- Gente, tem uma música aqui pra gente ensaiar. E entoou o verso falado: “Deixa que digam, Que pensem, que falem, Deixa isso prá lá, Vem prá cá, O que é que tem? E eu não tô fazendo nada, Nem você também, Faz mal bater um papo, Assim gostoso, com alguém?”
Um Hermeto meio atônito, ponderou: - Ô “Furico” (alí, todo mundo na banda se chamava uns aos outros de Furico), eu não sei acompanhar conversa não, só música!
- Mas tem a segunda parte, ó: Vai vai por mim, balanço de amor é assim... E dessa forma, acertaram o tom do novo samba. Rolou a noite e, por volta das três da manha, um casal que tava na casa desde o ensaio, pediu: - Jair, toca aquela que vocês tavam ensaiando hoje cedo? “Tequetê-Tucutú, Patatí-Patatá...”. Pra atender ao pedido, Jair  virou pra Hermeto Paschoal:
- Olha, o pessoal ta pedindo aquela que a gente ensaiou hoje cedo.
Mas Hermeto não lembrava. Jair então, por instinto, impôs as duas mãos com as palmas viradas pra cima e começou a alternar e sacudir freneticamente aquelas mãos enormes na cadencia do samba falado, palma pra cima, palma pra baixo... “Deixa que digam, Que pensem, que falem, Deixa isso prá lá, Vem prá cá, O que é que tem? E eu não tô fazendo nada, Nem você também, Faz mal bater um papo, Assim gostoso, com alguém?” Quando a banda se deu conta, casais se descolavam na dança pra imitar o gesto daquele refrão diferente, ritmado e falado. Nascia ali o primeiro RAP do Brasil. Depois daquele dia, ninguém mais esqueceu Jair Rodrigues.
Outubro, 2004. Eu, metido num mar de ansiedade e essa ansiedade tinha um nome: Jair Rodrigues. Em duas horas, começaria um show para cerca de mil pessoas em comemoração ao Dia do Médico no Minas Centro, Belo Horizonte. O que me deu na cabeça de contratar aquele “Rei Negro” da MPB pra fazer um show? Quem eu penso que sou, afinal de contas? Pensava nisso fazendo a barba, quando me liga o meu amigo Saldanha:
- O Jair já chegou no hotel, mas a notícia não é boa. Ele chegou de van, de outro show em Uberlândia - tá sem voz, tô levando ele no Dr. Alexandre Rattes pra ver o que dá pra fazer. Te dou notícias.
Não sabia se ria, se chorava. Era laringite, pelos muitos shows. O Jair garantiu que cantava, Dr. Rattes receitou algo e na hora do show, suspense. Entra o Jair, ovacionado por mais de mil pessoas. Dava pra ver que o som da banda cobria a voz do mito, afônico. Minhas mãos estavam frias, mas era Jair Rodrigues. Começou a entoar “Tristeza”, terceira música do set list já com voz de quem disse a que veio. Agradeceu do palco, o Dr. Alexandre pela força, eu também agradecia. Voz aquecida, o anfiteatro veio abaixo em uma hora e meia de espetáculo, encerrado com “Majestade o Sabiá” e “Deixa isso pra lá”. Eram centenas de mãos sacudindo e Seu Jair regendo todo mundo, em pé numa das poltronas, no meio do público.
Depois do show, fomos comer galinha ao molho pardo no Maria das Tranças, com a banda e frente a frente com o Jair. Perguntei: “- e a garganta, Jair?” Antes de colocar um naco de galinha na boca, sorriu largo: “- Laringite? Com sessenta e cinco anos, cinqüenta de estrada, laringite se cura com mais música”. Não sobrou muito a dizer, só aprendizado.  
Jair Rodrigues de Oliveira nasceu no dia 06 de fevereiro de 1939, em Igarapava, São Paulo. Dia desses descobri que aniversariávamos em dias próximos (nasci em 05 de fevereiro). Pena não poder ter dito isso a ele naquele jantar inesquecível – por isso resolvi contar essa história. Com a energia desse Rei Negro, não duvido que ainda possa ter a chance de outro encontro, quem sabe? Vida longa a você, Jair Rodrigues.   
fonte: jair rodrigues website, youtube e Record Cultura (jornalista Arnaldo Duran)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Lula e Michel Teló – tudo a ver com a Suíça


Ana Paula Falk,
direto de Zurique, Suiça
Imagine um bate-bola de rádio, tipo “Jovem Pan dos Alpes” - perguntavam pra um político suíço (cujo nome em português é simplesmente impronunciável) onde passar as férias, em quais restaurantes comer em Zurique, onde levar um turista pra ver coisas legais, essas coisas. Perguntas que exigem respostas diretas, sem frescura.  Aí veio a pérola: o locutor pergunta “cite um político” e a criatura me larga essa: “Luulá!” (a pronúncia deles soa desse jeito mesmo, com acento agudo). Me dei conta da abissal inocência do suíço (no caso, mesmo pra um político) e de quão o marketing político bem feito faz tantos milagres quanto um jogador de futebol famoso dançando “Ai se eu te Pego”. O que eu penso sobre o ex-presidente ou o Michel Teló não vai mudar o fato de que são queridos por aqui. Lula é o Michel Teló da política e ponto.
Michel Teló - "Ai se eu te pego",
na minha câmera, jamais!
Morro de curiosidade para saber como seria, ver milhares de suíças dançando a música de Michel Teló e cantando “Ai se eu te pego” sem a menor idéia do que elas estao falando. Não adianta o Youtube remover, o show dele em Zurique vai ficar nos celulares e maquininhas de muita gente pra todo o sempre (na minha máquina, não!). As suíças são um barato. Outro dia uma cantou o refrão perfeito e veio me perguntar se eu conhecia a música. Ela não sabia o que dizia a letra e cantava com entusiasmo. Me lembrou o esforço que a gente fazia pra cantar em inglês num tempo em que tudo o que vinha dos “states” pré subprime era o “must”. O Brasil tá moda, o Michel Teló também e as coisas aqui em Zurique realmente estão mudando. “Micheletos e Michelettes”, desculpem-me, mas pra quem já viu tocar Elis Regina nas rádios locais, tá complicado. Tem coisa melhor pra cair no gosto deles, até a Ivete Sangalo, mais eletrizante e com um conteúdo melhorzinho. Pensando por esse lado, melhor não entenderem a letra mesmo.
Aninha Falk, pro “SeES!”, de Zurique.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dusek, você é O Cara.

Eduardo Dusek escandalizou no final dos anos 70 cantando e tocando piano pra uma galera ensandecida. Vestia fraque e cuecão, cabeleira loura, absoluto. Cantava "Nostradamus", uma sátira de humor negro atual até hoje. Na época, muita gente não entendeu. Em 1980 eu era um frangote fascinado pela febre daquele Festival MPB Shell. Nunca esqueci aquela figura que, pouco tempo depois, na onda oitentista emplacaria Barrados no Baile, Cabelos Negros, Aventura, Rock da Cachorra e muito mais. Dusek tem menos espaço no cenário do showbiss brasileiro do que a sua estatura (não só a verdadeira, de quase dois metros). Uma pena. Verdadeiro gigante pela própria natureza, faz teatro, novela, canta, compoe, pinta, borda, tudo impecável, como prova seu novo DVD. O nível é altíssimo como só Eduardo Dusek sabe exigir dele mesmo. Dusek, você é o cara.

terça-feira, 21 de junho de 2011

É Pagode, é Jazz,..é o que? Pagode Jazz

Misturar é preciso. Quebrar convenções, misturar. O quê misturar é menos importante do que o bom gosto, a harmonia, o como. De tudo que se mistura com sabedoria fica a riqueza, pura. É assim que eu vejo o Pagode Jazz Sardinha’s Club, grupo carioca que toca samba, jazz, choro, funk, reggae-choro (isso mesmo). O grupo nasceu em 1997, fazendo shows no Beco das Sardinhas, meia dúzia de bares numa rua fechada do centro do Rio de Janeiro (Rua Miguel Couto, no largo de Santa Rita) que servem o mesmo cardápio: frango marítimo, uma sardinha aberta à milanesa. Um monte de mesinhas de plático se estende pela calçada de pedras portuguesas, iluminadas por aqueles postes do século retrasado. Nada mais Rio de Janeiro. Não podia dar outra coisa. Vejam o que esses oito caras fazem, veja o vídeo.

domingo, 10 de abril de 2011

Tarde de Chuva e um Show do Supertramp

Roger Hodgson (acima) e Flávio Venturini
(abaixo) - Supertramp brasileiro de volta

Epcot Center, Orlando (Flórida), novembro de 2010 - fim de tarde frio e chuvoso. Esse parque fenomenal, dentre tantas atrações, é também dividido em sessões temáticas, onde cada país mostra um pouco da sua cultura, arquitetura e culinária. E têm sempre as famosas lojinhas de “souvenirs” no final. No espaço dedicado aos Estados Unidos (o mais imponente, lógico), tropeço no improvável.  Em um pequeno palco à beira do lago rolava um pocket show do Roger Hodgson, a voz do Supertramp – não acreditei logo de cara, achei que era um cover, mas era ele mesmo. Como chovia muito naquela hora, não mais do que 250 fãs de capas de chuva brancas e amarelas se espremiam ali, de pertinho, vendo aquele senhor de cabelos compridos, sorridente, sentado ao teclado  tocando “Dreamer”.  Vendo ali o Sr. Hodgson tão autêntico, tão americano, lembrei do 14 BIS (a banda dos anos 70, não o avião) – sempre os considerei o Supertramp brasileiro. “Dreamer” soa com o mesmo impacto de “Espanhola” (Flávio Venturini/Guarabira) – a sensação nos primeiros acordes é inconfundível. “The Logical Song”  lembra “Bola de Meia” (Milton Nascimento), com aquele rif de violão e o assobio indefectíveis. E, assim como o americaníssimo Mr. Hodgson, nada é tão autenticamente brasileiro na música pop quanto o 14 bis de Magrão, Vermelho e os irmãos Venturini. Aliás, após 30 anos de carreira solo, Flávio Venturini retornou pra banda, devolvendo parte da originalidade desse ícone do final dos anos 70.
Saí do parque feliz, realizado e gingando naquela chuva fria e fina. Na cabeça “Dreamer” ainda soava ao fundo enquanto assobiava “Bola de meia, bola de gude, o solidário não quer solidão. Toda vez que a tristeza me alcança, o menino me dá a mão”... 
veja abaixo - Roger Hodgson (1) e 14 bis (2)

fonte: arquivo pessoal

fonte: youtube