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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Violência em São Paulo - verdade e exagero


Relutei em meter a colher nesse tema, mas não me sofri. Certos assuntos na imprensa viram moda. Nesse momento, tá na moda tocar terror na população paulista (e brasileira) por causa da “onda de crimes” que assola São Paulo. O terror alimenta a imprensa, que alimenta a população, que alimenta o boato, que alimenta o terror. Essa semana o tom dado pela revista VEJA ao tema me chamou a atenção. A matéria puxa a brasa para o Governo de São Paulo, ok. Mas os fatos são os números. Mostram que São Paulo não tem mais crimes que qualquer mega cidade e apontam também que já foi pior. O colunista Reinaldo Azevedo trouxe a tona alguns destes números: 
Reinaldo Azevedo
os números da segurança em São Paulo falam por si
  • O estado de São Paulo apresentou em 2011 o menor índice de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) do país em 2011 (10,8 mortes por 100 mil habitantes - a média Brasil é de 23,6/100 mil habitantes).
  • Com este indicador, São Paulo ficou abaixo do Alagoas (76,3/ 100 mil), do Espírito Santo (45,6/100 mil), Bahia (33,2/100 mil) e Rio de Janeiro (25,8/100mil). 
  • Levando em conta o número do Rio de Janeiro, por exemplo (25,8/100 mil habitantes), Reinaldo menciona que a propabilidade de um morador do RJ ser vítima de algum crime considerado no índice CVLI é 138% maior que de um paulista.
  • Em 2000, o mapa da violência em São Paulo era de 42,2 mortos/100 mil habitantes e em 2010 foi de 13,9% (baixou 67%). 
Não sou especialista nem em segurança, nem em estatística, só um abusado. Mas respeito números que falam sozinhos. Não quero jamais tornar o fato menor do que o real, longe disso. Mas converso com amigos paulistanos sobre o assunto e as posições são parecidas: “-Vida normal. Sempre os mesmos cuidados ao sair a noite, durante o dia, mas a vida é normal.”

Também não me considero um apaixonado por São Paulo, mas me compadeço da injustiça contra a cidade e o estado a reboque - um exagero. Existe sim um confronto entre o crime organizado e a Polícia, mas isso sempre houve. E nem sem compara ao que ocorria no passado, pós-invasão do Carandirú pela Polícia Militar, em 1992 (o presídio do Carandirú, em São Paulo, foi implodido em 2002 e um parque foi construído no local). O ocorrido na época teve um saldo oficial de 111 presidiários mortos. O evento teria sido o suposto motivador pra que bandidos se organizassem no chamado PCC (Primeiro Comando da Capital). Com o alegado motivo de combater a opressão, vingar os mortos e protestar contra as péssimas condições as quais vivem os detentos no sistema prisional brasileiro, o PCC passou a coordenar de tempos em tempos, ações intimidatórias, tais como alvejar policiais, delegacias ou incendiar ônibus. Com o passar dos anos, esse “poder” paralelo vem ficando cada vez menos coeso e atuante, na mesma proporção em que ações de inteligência por parte da policia vão se sofisticando. E nem a atitude do Governo de São Paulo de minimizar o fato nem a atitude da imprensa (ou de facções políticas) em tocar o terror na população ajudam de forma produtiva. O que dizer então de um Ministro da Justiça que diz o que pensa na hora errada? O Ministro José Eduardo Cardozo disse no dia 13 de novembro de 2012: “Nós temos um sistema prisional medieval. Se fosse para cumprir muitos anos em algumas prisões nossas, eu preferiria morrer.” Mas não é DELE a pasta que cuida do sistema prisional? E está assim desde quando?

Parabéns, Ministro. Uma declaração destas é tudo que uma população com receio dos bandidos e da sua própria polícia NÃO precisa.

p.s. - me recuso a comprar a VEJA, faz muito tempo que deixou de ser interessante. Mas para o Dr. Google tudo é possível e de graça...

fonte: Revista Veja, Blog Reinaldo Azevedo, Anuário brasileiro de segurança pública, Yvonne Maggie - G1


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Drogas e o vício - o que os olhos não esquecem


Falar de vício - fácil pra quem vê o problema de fora e de forma bidimensional. 

Não faço apologia ou juízo de valor, pois corro o risco de assumir uma postura cabida apenas a quem vive o problema. Já vi o enlevo pela bebida. A vida da pessoa vira um céu e depois um inferno, quando na verdade, nunca houve céu. Pura ilusão. E esses olhos já viram o inferno de quem se descobre vencido pela cocaína – o tempo não é suficiente pra esquecer algo assim. Era meu segundo emprego, me espelhava num colega, um querido. Aprendi muito com ele. Era sofisticado pra atender clientes, sagaz com os números e implacável na venda. E tinha mel, todo mundo gostava do cara. Se me perguntassem como eu via o futuro dele, respondia sem pensar: era o próximo chefe de alguém, com certeza. Até que, um dia, o Saulo sumiu (nome fictício, pra preservar sua identidade). Não atendia telefone, não respondia e-mail, não apareceu mais no escritório. Não era o tipo de cara que passava despercebido e isso preocupou. Uma semana após o sumiço, a família envolveu polícia. Entraram no apartamento e o encontraram pelado, desacordado, em plena crise de abstinência. O chão do apartamento era cenário de guerra – comida pelo chão, roupas, pertences e, ao que parecia, tinha desmontado uns cinco computadores. Peças de todos os tamanhos pra todos os lados, misturadas com cadeiras quebradas, gavetas reviradas. O apartamento quase não tinha móveis e o que tinha, tava aos pedaços. Passados uns dias, fui visitá-lo na internação de uma clínica famosa. Dei um livro pra ele, do Fernão Capelo Gaivota, onde escrevi uma dedicatória: “amigo, tenha paciência e que Deus te dê sabedoria para seguir adiante. Um forte e caloroso abraço.” Quando leu a dedicatória, Saulo se emocionou e me endereçou aquele olhar vazio. Lembrei dos personagens do Nicholas Cage, sempre aquele semblante atordoado. Agradeceu o livro e se foi, acompanhado por um enfermeiro. Nunca mais vi o Saulo e nunca mais esqueci aquele olhar.

Quando li que o Brasil é o segundo país no mundo no consumo de cocaína e derivados, lembrei do caso do Saulo. 2,8 milhões de brasileiros consumiram cocaína nos últimos 12 meses, até a data da pesquisa (Unifesp 2012). É mais que a população de Salvador, a terceira maior cidade do Brasil. E 35% dessas pessoas estão no estado de São Paulo. Vendo a coisa por essa perspectiva, fica ainda mais assustador. Só temos um caminho: alertar nossos filhos e fazer de tudo pra que entendam (e fiquem longe) dessa realidade. Já temos “Saulos” demais nas nossas portas.  

domingo, 2 de maio de 2010

Hairspray Brasil - Mamãe acorda, eu ja cresci!

Fui ver a peça "Hairspray" (montagem de Miguel Falabella), em cartaz no Teatro Bradesco (SP), novinho em folha. Musicais não são a minha preferência, muito embora as orquestas, alí tocando ao vivo e em cores, são de tirar o fôlego. O Celulari no papel de Edna Turnblad deu um banho em John Travolta (filme homônimo de 2007). Impressionante - é voltar ao American way of life de 1962 sem nunca ter estado lá, adicionado ao jeito brasileiro de fazer teatro misturado com "Sai de Baixo". E a Broadway não tem Arlete Salles e pronto, nada a declarar.
Quem estiver por São Paulo e curte as montagens da Broadway (aliás, as brazucas dão um pau nas "originais" americanas), não pode perder, mas sugiro já vir com o ingresso comprado via Ticket Master ou serviço que o valha, pois tinha gente lá com ingresso comprado há um mês, casa lotada direto. Veja a matéria do jornalista Michel Fernandes, quando peça chegou a SP em fevereiro. Para ver um trecho da Peça, clique no título deste post.
fonte: Youtube, Aplauso Brasil website

sábado, 20 de março de 2010

São Paulo - 6a feira, 19 de março - "Rascunho do Inferno"

19 de março, 2010. São Paulo bate novo recorde do qual os paulistanos não tem do que se orgulhar. 214km de engarrafamentos. Em 10 de julho de 2009, o record ainda não batido foi de impressionantes 290km. Os números assustam, mas mais assustador é estar lá - e eu estava - ao todo, 8hs naquela situação (de manhã cedo, 2hs para chegar e a tarde, 6 horas para sair). Os fatos conspiram, como num atentado terrorista, as bombas são deixadas em locais diferentes para explodirem em uníssono. Salve-se quem puder: o asfalto cedeu na Marginal Tietê (norte), um caminhão de ácido virou no Anel Viário Mário Covas (sul) e toma-lhe acidente envolvendo moto e caminhão na Av. Bandeirantes. Ah, e é sexta-feira ainda por cima. Com ou sem rodízio, parou a cidade. A claustrofóbica Sul América Trânsito deixa qualquer um zureta - tente ficar ouvindo por mais de 15 minutos - é o Armageddon (queria aprender a falar cadenciado daquele jeito, sem respirar, que locução!). Ok, tenho que reconhecer que o serviço que eles prestam impressiona e a idéia é absolutamente genial - A MPM Propaganda ganhou o Leão de Bronze em Cannes e o "Prêmio Colunistas" (Mídia Alternativa - ambos em 2007) por vincular o serviço dá rádio à Sul América Seguradora. Depois de ler a "Seleções", conferir os e-mails, trocar os CDs, mudar pro rádio e daí pro CD de novo, começa a ficar bem chato. Penso na Ford, anunciando que "você pode comprar seu carro por 1 real hoje e começar a pagar as parcelas só depois da Copa de 2010!". Pronto, é culpa da Ford. Imaginava meu carro com simpáticas cortininhas nos vidros e uma mesinha de feltro verde entre os bancos para uma mãozinha de pife. Na Rodovia Raposo Tavares (3 horas para cruzar 8km), o cara do meu lado curtia, em transe, um DVD do Oasis (sempre fui contra aparelho de DVD no painel - alí, tive inveja do sujeito). Quase pedi pra ele aumentar o volume para cantarmos juntos. Na psêudo-segurança daquele casulo climatizado, a paciência e a motivação têm uma sobrevida bastante duradoura. "Tem gente em situação bem pior", pensei. Mas a partir da 4a. hora, quando penso no posto com mictório que não vem, o corpo começa a trabalhar contra e o cérebro fagocita todo o otimismo. Na parada, umas 100 pessoas esperavam pacientemente ônibus que um dia viria. A vida parou pra mim, pra eles...só mesmo ouvindo Oasis.
fonte: onbranding website, Sul América Trânsito website e minha paciência....