Sábado cedo, acordei inspirado e fui ver a figueira. Eram 6 figos ensacados, para não trazer pássaros – perfeito. ROSATUS FIGUS LECIONITIS ONNIA VINCIT (como não sei dizer “A lição do figo rosado sempre vence" em latim, inventei), mas...como evitar que o vento leve os saquinhos? Tem sempre uns 3 ou 4 destes saquinhos espalhados pelo pátio. Capaz que eu vou amarrar “a perna do figo” como meu avô fazia. Ele tinha uma paciência tibetana, coisa bem rara nos dias de hoje, muito menos eu. Meu jardineiro, estimado Valcir, estava em volta. Respirei fundo e comecei a amarrar cuidadosamente o barbante no primeiro figo (eram mais 4 pra ensacar e amarrar). Com calma, levei os primeiros 3 nós cegos na esportiva. Tentei uma 4ª vez, suando, já tinha platéia. O Valcir me olhava complacente por uns 10 minutos: “O Senhor tem daqueles grampeador de escritório?”. Olhei pra ele e o que pensei, lógico, não falei - muita sinceridade força a amizade: “Claro, você precisa de um?” Ante o aceno dele, me levantei resignado e fui buscar – voltei e passei pra ele o grampeador. O Valcir fechou um saquinho em torno do figo e tascou: “O Senhor pega o grampeador, clica aqui desse lado e aqui desse outro lado e tá pronto, não precisa barbantinho não, sô.” Me senti uma besta. Mas a Lição do Figo Rosado Sempre Vence, com ou sem grampeador.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
A Lição do Figo Rosado (parte II)
Sábado cedo, acordei inspirado e fui ver a figueira. Eram 6 figos ensacados, para não trazer pássaros – perfeito. ROSATUS FIGUS LECIONITIS ONNIA VINCIT (como não sei dizer “A lição do figo rosado sempre vence" em latim, inventei), mas...como evitar que o vento leve os saquinhos? Tem sempre uns 3 ou 4 destes saquinhos espalhados pelo pátio. Capaz que eu vou amarrar “a perna do figo” como meu avô fazia. Ele tinha uma paciência tibetana, coisa bem rara nos dias de hoje, muito menos eu. Meu jardineiro, estimado Valcir, estava em volta. Respirei fundo e comecei a amarrar cuidadosamente o barbante no primeiro figo (eram mais 4 pra ensacar e amarrar). Com calma, levei os primeiros 3 nós cegos na esportiva. Tentei uma 4ª vez, suando, já tinha platéia. O Valcir me olhava complacente por uns 10 minutos: “O Senhor tem daqueles grampeador de escritório?”. Olhei pra ele e o que pensei, lógico, não falei - muita sinceridade força a amizade: “Claro, você precisa de um?” Ante o aceno dele, me levantei resignado e fui buscar – voltei e passei pra ele o grampeador. O Valcir fechou um saquinho em torno do figo e tascou: “O Senhor pega o grampeador, clica aqui desse lado e aqui desse outro lado e tá pronto, não precisa barbantinho não, sô.” Me senti uma besta. Mas a Lição do Figo Rosado Sempre Vence, com ou sem grampeador.sábado, 12 de junho de 2010
A Lição do Figo Rosado
“Figo rosado traz a atenção dos pássaros, ensacai-vos”. Meu avô dizia sábio enquanto ensacava cada fruto com saquinhos daqueles pra acondicionar pipoca em festa de criança – feito o serviço, garroteava cada um com um barbante fino, para que o vento não levasse. Era pouco mais que um pitoco de gente quando presenciei o ensinamento. “Vô, esse cordão não vai prender a perna do figo?”. Meu vô era um sabio das coisas simples, como simples ele foi a vida inteira. Não era de complicar nada, com poucas palavras, falava tudo. Riu da expressão “perna do figo” e, terminado o serviço, sentou-se para ouvir Internacional e Juventude no radinho Evadin.Isso me veio enquanto cuidava da nossa figueira. Ensacar os figos é um ritual. Uma homenagem silenciosa ao Seu Antônio - a lição do figo rosado cumpriu seu legado. Essa figueira me supreende, nunca fui de me dedicar à plantas. Comprei a muda porque vi na casa de um amigo e a achei surpreendentemente bonita, pelada e sem fruto algum (vai entender). Dizem que as plantas reagem à mão do dono. Ou enganei essa figueira ou tenho mais apreço por ela do que pensava – até agora, 24 figos, em 3 etapas. Os primeiros 2, não dei muita bola. Os passarinhos chegaram antes, deixando os restos mortais. Ví aquilo e, envergonhado, lembrei da lição do figo rosado.
Hoje, o ato solene de ensacar os figos teve o dobro do público habitual. Meu filho olhava atento. “Pai, pra quê ensacar os figos?”. Ao ouvir aquilo, me senti dono de um imenso legado. Impostei a voz, me preparei, enchi o peito e tasquei – “Filhão, figo rosado traz a atenção dos pássaros. Eles comem e aí a gente fica sem.” Obrigado vô, fique certo de que seu legado está preservado.
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