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sábado, 23 de julho de 2011

Rio pra não chorar

Bueiro na Rua Visconde do Pirajá
Nem o terrorismo entenderia
Bombástica revelação: existiu de fato um plano da Al Qaeda pra um atentado no Brasil. Mais especificamente no Rio de Janeiro. Mas descobriu-se também que o plano foi logo abortado. Chegaram à conclusão que um atentado no Rio de Janeiro daria muito trabalho pra pouco impacto e ainda daria um trabalhão extra reivindicar a autoria – a imprensa iria culpar o tempo todo a CEG ou a Light.

Ok, pode ser que exista uma célula da rede terrorista instalada debaixo do solo carioca. Pode até ser e, se for por esse caminho, dá pra ir mais longe: Pode ter gente deles infiltrada nas prefeituras das cidades vitimadas pelo ocaso dos temporais na Serra do Rio de Janeiro. Seria um plano perfeito: ao invés de jogar bomba, deixa que a natureza suje as mãos (é fácil responsabilizar Alah)  "e nós roubamos o dinheiro pra recuperação das áreas atingidas. Ficamos com aquela merreca dos dez milhões e os infiéis morrem de todo o jeito". Impecável e perverso, tal qual as tais escolas de pilotagem de aviões nos Estados Unidos - vários Al Qaeda estariam vivendo na Serra do Rio. Uma parte fez concurso para as prefeituras, virou funcionário público de carreira. Outra parte se instalou na política local, pra dar as cartas e preparar o terreno pro "juízo final". Todo mundo em seus postos, era só esperar o dia dos desabamentos. Como as áreas de risco não eram segredo pra ninguém, não precisou esperar muito.  


O Carioca não tem outra saída senão rir de si mesmo. Há pouco começaram a aparecer adesivos sarcásticos nas tampas de alguns bueiros. Uma forma criativa e bem humorada de encarar a triste realidade: o passivo do Rio é enorme e todo dia depõe contra os cariocas. A conclusão é simples. Deixou a porta de casa, é cada um por si e ninguém por todos. Uma miséria humana difícil de entender e de engolir. O imprevisível é sempre o prato do dia. Nem o terrorismo ousaria afrontar um concorrente o qual não conseguiria entender.
fonte: O Estado de São Paulo  

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Meus discos, Meus livros e Nada Mais

Ano, 1998 - a cidade, Rio de Janeiro. Precisava de uma rota de fuga, um porto seguro improvável. Todo mundo quer as praias da novela da Globo. Desafiei o imaginário brasileiro e me enfiei na serra, num pequeno fiapo de Mata Atlântica. Conheci São Pedro da Serra há 12 anos, tipo elo perdido, no final da RJ-142, nem longe nem perto de Nova Friburgo. Sem telefone, nem asfalto ou sinalização – não precisava. Só precisei de um devaneio suspirado do meu amigo Alberto Leôncio: “- você não vai mais querer sair de lá”.
Ano, 2010 – É distrito, mas chamar de vila rima mais com o aconchego de São Pedro, onde tudo indica que o tempo anda mais devagar. Foi justamente essa desaceleração que nos atraiu. Céu, cabana, frio e calor, tudo em ritmo lento, pictórico. Ir à São Pedro é não ter pressa. É um cenário tipo “Show de Truman” e todos são personagens das familias Overney, Monnerat, Spitz (aliás, meio mundo se chama Overney, nome dum dos primeiros suiços a dar as caras em 1822). Tem Overney na padaria, na loja de móveis e no supermercado do Assis. Pudera, onde vivem umas duas mil pessoas, todo mundo tropeça na esquina de todo mundo. Já tive um dos primeiros telefones, hoje não mais – celulares Vivo pegam bem, internet “banda lerda” também, mas ainda que o moderno chegue à São Pedro, ela resiste – tente achar alguém pelo endereço ou cep. Tente encontrar uma pessoa pelo nome (e não pelo apelido). Tente achar uma loja das Casas Bahia ou exigir pressa de um garçom (aí, é forçar a amizade).
Meu MARCO ZERO em São Pedro: Ecoarte Brasil, um canto iluminado por livros, CDs e patchworks caprichosamente misturados, como uma casa de bonecas. E a Zelma sorri, acolhe. Não ter comprado um livro ao som de Pixinguinha (ou dos sambas do Casuarina) é ainda não ter sido abençoado.
Sai carnaval, entra Páscoa, Corpus Christi. Sempre saio com a idéia fixa de não voltar mais lá, mas pra Richard Bach, “Longe é um Lugar que não Existe”. Se ele não conheceu São Pedro da Serra, deveria.